Não há ditadura na psicanálise ( Por Roney Moraes)

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“A psicanálise é um ouvir atento do silêncio que mora nos interstícios das palavras, a fim de ouvir o que não foi falado”, Rubem Alves.

Por Roney Moraes

Teólogo, Psicanalista e Jornalista

Há pouco mais de um ano tive o privilégio, junto com alguns companheiros, de fundar a Associação Psicanalítica do Estado do Espírito Santo (Apees), com sede e foro em Cachoeiro de Itapemirim-ES. Mas por qual motivo isso interessa ao leitor? Já que estamos em tempos eleitorais, eis que surge a oportunidade que esperava para abordar o tema “política” na psicanálise.

O termo que tratam com cuidado e distância em alguns círculos “psi”, me deixa à vontade porque fui eleito democraticamente por um grupo considerável de analistas e pesquisadores que foram, no início, uns com boas intenções e outros com intuitos duvidosos em relação ao trabalho proposto, que é divulgar e formar grupos de estudos em Psicanálise.

Digo aqui e repito (infinitas vezes, se for o caso) política todos nós fazemos o tempo todo, toda hora. Há sim os maus praticantes. Pessoas que usurpam entidades e mandatos sem ao menos ter legitimidade representativa para isso. Estes sim, não tem o meu respeito, meu voto. Sequer alguma consideração.
Para o bem da Psicanálise, leiam, pacientes, o que escrevo. Ética não se encontra em cada esquina. A prática tem mais a ver com esta palavra do que técnica, talvez com política também. Em época de eleições, desconfie dos falastrões, estes sim não respeitam o seu silêncio e a verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras.

Na Psicanálise se tem falado em um tom de dogma a ser seguido por algumas instituições. Até os consultórios tendem a ser sempre muito parecidos e, com cara de nada! Com isso, supostamente, estariam expostos a um preenchimento imaginário a partir das fantasias e estilos de práticas periféricas (outras linhas homeopáticas que nada têm com a terapia analítica) incorporada na análise sem a percepção do cliente. Mas e daí? É o seguinte: se eu vou à urna para votar num deputado não há opção para prefeito. O paciente (eleitor) escolhe a linha que quer, não o “psicoacumulador”. No divã não há repressão, muito menos ditadura do conhecimento.

Como disse antes, esse tema tem sido objeto de formulações elaboradas que situam o lugar da ética no processo analítico. A exemplo, recentemente, foram organizados no Brasil simpósios e congressos sobre ética, por grupos de diversas linhas. Cada uma com sua concepção, mas, de uma coisa tenho certeza, todos os grupos sérios concordam que as paredes do consultório não têm ouvidos, só o analista.

Quanto à política, nem se fala. Ou pouquíssimo se fala. Algumas tentativas no sentido de enfrentar a questão, no entanto, são feitas. Raras, porém existentes. Mas, o problema da pscicanálise são os psicanalistas. Inseguros e com paranoia de uma perseguição fantasiosa em relação aos psicólogos, que por sinal, atuam muito bem politicamente.

Ora, porque falar de ética e política juntas? Nem por teoria nem por decreto, o que se passa entre cliente e analista, se assim vemos, pode ser apolítico ou vivido fora de algum registro de poder, mas deve ser reservado ao espaço do consultório. A falta de ética ocorre quando o analista se afasta de seu campo, quando dá respostas antecipadas ao analisante. Por isso, é importante que na sua vida fora da clínica, o analista encontre vários níveis de compensações, suficientes que o preservem da tentação de se satisfazer (com seus pacientes e colegas). Seu desejo não deve interferir no desejo de ninguém. A Ética está presente tanto na formação teórica da psicanálise quanto na sua aplicação prática (clínica).

Ao procurar um bom profissional, assim como na urna eletrônica, faça como um analista, leitor, analise! Preste atenção ao que não foi dito, leia nas entrelinhas. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio!
*Presidente da Associação Psicanalítica do Estado do Espírito Santo (Apees) e do Instituto Brasileiro de Psicanálise (IBP/Inape).

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