Homenagem a Bebeto Leite (Por Gilberto Braga Machado)

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Por Gilberto Braga Machado

Foto: Milton Concellos

O texto apresentado pelo Site Mimoso In Foco e escrito por Gilberto Braga Machado foi publicado nas comemorações de 70 anos do saudoso Bebeto Leite. Na ocasião de seu falecimento, o amigo Gilberto Braga Machado, leu esse texto “ao vivo” na Rádio 87,9 FM com profunda emoção. Resolvemos publicar no Site como forma de lembrança e pêsames aos seus familiares.

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Dar partida a uma parcial biografia de um personagem, não é das tarefas, a mais complicada, porém em se tratando de um amigo de alta patente, e que viveu no melhor Rio de Janeiro, cidade-gêmea da altiva Mimoso do Sul, torna-se-á bem mais difícil. Tudo, ou quase tudo se passou nos anos sessenta. O Presidente da República é JK, o simpático Juscelino Kubicheck, de origem tcheca.

O governador do Rio de Janeiro é o empreendedor – Carlos Frederico Werneck de Lacerda – E para coroar, o belíssimo presente dado ao mundo por Tom Jobim e Vinicius de Moraes: a música Garota de Ipanema. É a terceira música mais tocada no mundo fonográfico. Nessa mesma década,inaugura-se o MIS – Museu da Imagem e do Som, e a Sala Cecilia Meireles, e “de quebra” a canção: A Banda. Esse “música-dobrado” começou a projetar o então imberbe Chico Buarque de Holanda. E outro frisson é o biquini de praia, aparecendo primeiro, nas areias de Ipanema, e autora dessa ousadia, foi a irrequieta atriz Leila Diniz.

Um momento fértil nas revoluções nas artes em geral, evidenciando-se na música popular brasileira, ocorridas no Rio de Janeiro. E o condado de Mimoso do Sul estava representado por uma testemunha ocular,como dizem os historiadores,nada mais do que Bebeto Leite. Que ennquanto funcionário do Banco Nacional, “agencia-Ipanema”, no coração, onde nasceu o movimento poético-musical, conhecido como, bossa-nova.

Bebeto Leite frequentava os lugares da moda, onde estava a boemia. Desde a boite Arpège, onde “sentou praça” o maestro Tom Jobim, a bordo de um piano Essenfelder,um dos mais modernos pianos, naqueles tempos. No Arpège cantava uma constelação, a saber: Dolores Duran, Johnny Alf, Lucio Alves, Maysa entre outros.

Bebeto Leite vivenciava todos esses processos e eventos culturais, pois carregava na sua alma a emoção de estar plenamente contextualizado num caleidoscópio das artes, que poucos tiveram esse privilégio único e quase inenarrável. Bebeto Leite frequentava as casas notívagas, onde a música era sempre ao vivo. Por exemplo no centro do Rio, o point era na tradicional rua sete de setembro, num aconchegante bar-musical conhecido como Chamego do Papai. Sob a direção do casal Libania e Tomé.

Nesse local se reuniam poetas, cantores e compositores,que davam as famosas canjas. Bebeto Leite, sempre amigueiro, conquistou a amizade de um grande violonista e compositor chamado – Américo de Macedo, hoje morador em São Fidelis.

E a dupla se formou e compôs algumas músicas, e dentre elas, cujo o título é -Amarguras não – letra de Bebeto Leite e a música de Americo de Macedo. Essa música foi gravada pelo que foi considerado ” um dos maiores fenômenos da música romantica brasileira ” – A l t e m a r D u t r a, conforme consta no Dicionário Ilustrado Antonio Houaiss da Música Popular Brasileira – Criação de Ricardo Cravo Albin.

Altemar Dutra, esse mineiro-capixaba se apresentou pela primeira vez na Rádio Difusora de Colatina. Em principio, as composições musicais estão atreladas a uma uma inspiração inesperada, que muitas das vezes surgem na noite,na boemia. Talvez uma conquista ou quem sabe por uma desilusão amorosa. Bebeto Leite permanece hermético,e se fecha quando lhe indagam sobre a matéria. O leitmotiv, o fio condutor do poema, que se tornou música, eí-la os seus versos:

“Amarguras, não”
Tu me deixastes aqui tão só /sozinho com tão grande dor /quanta esperança destruistes em mim /Vida tão cheia de luz /eu encontrei em ti /esse presente eu vivi /sem no futuro pensar /Quero encontrar um novo amor /viver a vida que sonhei /amarguras não /quero ser feliz.

A poética dessa canção foi escrita no Arpoador, num tugúrio urbano de nome ” Mau cheiro “, após o sucesso de “Amarguras não ” esse local se transformou n’O Barril 1800, ponto turístico internacional do Rio. Bebeto Leite digo Carlos Alberto Gomes Leite, depois conquistar régua e compasso, resolveu retornar em definitivo, para estar junto ao seu pai – é a volta do filho pródigo.

De quando em vez Bebeto Leite voltava a rua Voluntários da Pátria em Botafogo, a visitar sua mãe, Leonice. A sua trajetória de vida continuou num rítmo de acordo com a cronologia dos fatos, e resolve após uns poucos anos em estado celibatário, a se unir a Malu Silva, que é filha de um saudoso seresteiro de voz maviosa e harmônica, hors concurs. E se chamava Jair Silva. Bebeto Leite quando se dirigiu ao seu amigo e futuro sogro Jair Silva, e meio encabulado, imagino e disse-lhe: quero me casar com a sua filha. O pai da Malú foi acometido por uma pequena arritmia cardíaca. Desconcertou-se e não acreditou no pedido daquele que se tornou um paradigmático amigo e conselheiro. E Jair Silva,disse-lhe um sonoro: Não.

O tempo, senhor da razão, foi acendendo as lamparinas da sensatez em ambos, e a união se confirmou e o casal foi premiado com quatro ótimos filhos e uma princezinha, que herdou o simpático o nome de Francine. Bebeto Leite trilhou os caminhos que a vida lhe indicou, deixou algumas dezenas de vezes que a emoção o inebriasse, e ela tomasse a alma e o coração, até quando permitiu.

Eclético, pragmático, seria necessário uma mais profunda exegese para discorrer mais sobre Bebeto Leite. Êle intuiu, e se pautou por vários pressupostos de conduta de vida.Destaque para essa filosofia da poética: É melhor ser alegre que ser triste / alegria é a melhor coisa que existe / É assim como a luz no coração. Essa é a primeira estrofe do Samba da Benção de Baden Powel e Vinicius de Moraes. O Poettinha, assim vaticinava.

Bebeto Leite construiu uma bela família, exerceu democraticamente a bíblica missão de ser pai, e está sempre a sorrir, e criando neologismos. Locutável, porém não exerce a vocação radiofônica. Incorporou parte do modus-vivendi dos cariocas, fruto da sua longa e profícua convivência com o bom humor daqueles que respiram o Rio de Janeiro. É um cidadão cosmopolita, vive o seu dia-a-dia compreendendo o dinamismo das mudanças do mundo, ajustando as pedras no tabuleiro do xadrez da existencia humana. Bebeto Leite enfrentou e venceu as mais graves vicissitudes que lhe foram apresentadas, não esmoreceu nos momentos mais agudizados. Creio ainda ser um autêntico existencialista em recesso.

Para encerrar, ou melhor, intervalar a nossa modestíssima cronica, se me permitem, estou a citar Mário Quintana – escritor gaúcho ,que ditou esse diamante literário : Amizade é um amor que nunca morre.

Parabéns Bebeto Leite. Foram setenta anos com mais alegria. E mais e mais anos, ainda serão comemorados.

TEXTO: Gilberto Braga Machado

FOTO: Milton Concellos

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