EM ALGUM LUGAR DO PASSADO: Sexta-Feira da Paixão

Rua da Prefeitura década de 50
“Foi um tempo que o tempo não esquece”

 Por Renato Pires Mofati

(Este texto já foi publicado anteriormente no Jornal “A Folha Mimosense e no site Mimoso Online”, mas devido à proximidade da Sexta-Feira da Paixão, o site Mimoso In foco traz na integra novamente este conto que diz respeito à Semana Santa e sua importância a todos nós).

Estou aqui pensando neste mês de abril, bem próximo da minha máquina do tempo para que ano ou época irei viajar!

Após uma breve introspecção, sentei-me em sua cadeira liguei o conversor de tempo, apertei o botão, rapidamente num piscar de olhos voltei para 1960, exatamente no mesmo mês de abril, era uma sexta-feira.

Eu estava ali em plena praça da cidade, tudo calmo, tranqüilo até demais! Notei que havia algo diferente, já se passava da quarta hora após o meio dia, um silêncio tomava conta de tudo, podia-se contar nos dedos às pessoas que por ali meus olhos podiam ver… Os comércios fechados, um céu carregado e rajado pronunciava um temporal, aliás… Nem os cantos dos pássaros se ouviam, a natureza falava por si… Era um momento triste! Literalmente algo esta acontecendo, de repente ouvi alguns passos, me virei para a calçada da Arca de Noé e pude ver perfeitamente uma figura bondosa e curvada vindo em direção a prefeitura, tratava-se do Sr. Luiz Schiavo acompanhado de sua esposa e da amiga Dona Cotinha Braga. Então uma voz suave chama pelo Sr. Luiz acenando com a mão, era Dona Marieta Abreu acompanhada de Dona Odília Barreto, para que juntos seguissem para algum lugar, e assim o fizeram, tomaram rumo em direção a rua do Dr. Lincoln.

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Eu estava ali parado, sozinho olhando para aquele acontecimento que foi quebrado pelo tradicional barulho de um portão de ferro que se trancara, olhei rápido de onde aquele som vinha, e o vulto do Sr. Willian Moreira desapareceu nas dependências de sua residência, segui a passos rápidos até o seu armazém que também estava fechado. Curiosamente…

Olhei para aquela árvore que esta ali em nossa praça e notei que seus galhos balançavam de um lado para o outro provocado por um vento forte que soprava e arrastavam folhas, papeis e poeira.

Nossa Praça década de 50 (2)

Não chovia ainda! Relâmpagos e Trovões quebravam o silêncio daquele momento estranho, protegi-me embaixo da marquise do Armazém Moreira que abrigou e ainda abriga muitos de nossa cidade, e foi ali que realmente pude perceber o que estava acontecendo. Havia um cartaz fixado na porta daquele estabelecimento que dizia o seguinte: “A Igreja Matriz São José convida a todos para assistir a encenação da paixão de cristo que será realizada em frente a Igreja logo após a procissão do enterro nesta Sexta-feira da Paixão”.

Finalmente tudo estava claro para mim, pois ao volta-me no tempo vim parar exatamente numa sexta-feira da Paixão, que marca a cada ano a morte de nosso senhor “Jesus Cristo” e todos os acontecimentos presenciados por mim, era na verdade a resposta ao momento de sofrimento, flagelo e morte que passava nosso salvador, mesmo após a morte de Jesus a mais de 2.000 mil anos! Este dia é diferente com toda certeza, a natureza se entristece e tudo se modifica.

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Naquele tempo esta época era muito respeitada, para se ter uma idéia, durante a quaresma praticamente não se consumia carne vermelha, que era substituído por peixe. Na semana santa as emissoras de rádio mudavam seu repertório, a música popular era substituída por cantos e hinos específicos para a ocasião. Já na sexta-feira da Paixão, muitas pessoas não penteavam os cabelos, não varriam casas e quintais, não usam facas para se fazer cortes principalmente em pães, qualquer tipo de atividade era evitado, no período da tarde daquela Sexta-feira todos silenciavam-se, ficavam quietos, rezavam, muitos jejuavam e as vezes a fome era quebrada com o tradicional canjicão.

O respeito era muito grande, e eu estava ali naquele dia, então resolvi seguir junto a outro grupo de pessoas que também se dirigiam para a Rua do Dr. Lincoln e que fazia parte: Dona Amenaide Abdala, Tia Miquita Ribeiro de Castro, Minha Avó Aracy Pires, Dona Rosa Guarçoni, Dona Helena Rangel, Dona Darcília Klain Gonçalves e outras… e que na seqüência daquela Rua se juntaram a eles Dona Palmira e Sr. Antonio Lima leite, Dona Cecília e Sr. Cristovão Ramos Pinto, e assim seguimos nosso trajeto, passamos pela antiga ponte do camêlo toda em madeira e bem estreita, depois pelos mangueirais do Sr. Gil leite que era a continuação do pomar de sua Irmã Amelinha leite, o chão todo batido e apenas fundos de residências era o que víamos.

Vista parcial de nossa praça - década de 50 (3)

Passamos então pela casa da Dona Zizi e finalmente chegamos à Igreja, subi a escadaria principal e parei por um breve instante em um dos espaços laterais da sacada e fiquei olhando aquela enorme estrela com luzes acesas que estava fixada naquela pedra no morro da caixa d’água, havia um pouco mais distante dali um grande cruzeiro em madeira, e junto a ele várias pessoas se reuniam. Ao termino desta minha contemplação vendo os detalhes e coisas que Mimoso do Sul tinha, resolvi então entrar na Igreja, notei que todos os Santos estavam cobertos com uma manta roxa, o que tradição na quaresma, reparei que muitas pessoas se ajuntavam em certo local ali mesmo dentro da Igreja e resolvi participar…

Todos oravam em frente aquela imagem de “Jesus” naquele esquife de vidro que me trouxe recordações do meu tempo de criança, das catequeses com Dona Marieta e de quando fui coroinha…

Eu ficava olhando para Jesus com todos aqueles ferimentos, imóvel, deitado, o que na verdade não entendia direito e aquela cena me deixava um pouco assustado, mas somente com o passar do tempo é que pude perceber do que se tratava. Após a encenação da Paixão de Cristo, realizada em frente a igreja,a procissão já se formava com uma grande participação de todos, pessoas com velas acesas, outras com um objeto estranho nas mãos, e que após o início da procissão pude saber do que se tratava, eram matracas que fazia um barulho estranho e era costume seu uso pelos sacristãos da Igreja na procissão daquele dia.

Na Semana Santa ouvia-se no rádio Contos de Cristo, e nos cinemas filmes bíblicos como: O Manto Sagrado, Rei dos Reis, Espartacus, Os Dez mandamentos, El Cid, Bem Hur e Sansão e Dalila, que era sinônimo de casa cheia. De fato é um período sério e único que todos devem guardar com respeito e dignidade por aquele que sofreu e deu a vida por nós…

TEXTO: Renato Pires Mofati

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