Crônica Renato Pires Mofati: o mais famoso julgamento de Mimoso

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Folheando um velho livro de histórias de nosso lugar e dentre as páginas amareladas e envelhecidas pelo tempo, escolhi um assunto para contar a vocês. Um fato muito sério e ao mesmo tempo pitoresco.

Então vamos lá: por volta de 1954 aconteceu um crime em nosso município que foi motivo de conversa em todos os lugares, crime este que todos diziam ser encomendado. A vítima chamava-se “Manoel Flor ”e com isso levou o acusado e supostamente o mandante do crime a julgamento. Seu nome era Tãozinho e o local do júri obviamente foi na sala de audiências do Fórum que naquela época ficava onde atualmente está nossa Câmara Municipal.

Casa cheia para assistir aquele que seria o julgamento mais esperado e importante até então já realizado na cidade.

Dentre os presentes no referido local, encontrava-se um dos filhos da vítima por nome “Rosalvo”, que calmamente assistia o desenrolar do julgamento.

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Foi nomeado pelo Meritíssimo Juiz de Direito um advogado de defesa, pois nenhum outro quis pegar a causa. A advogada foi a Dra. Leda de Souza Mariano, que apesar de sua capacidade, parecia um coelho assustado.

Na praça da cidade, populares ocupavam cada espaço nos jardins, bancos, bares, esquinas… Enfim, parecia dia de festa!

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Tudo isso para ouvir o veredicto final do julgamento. Então um zum, zum, zum ecoou por toda a cidade, pois todos diziam que outro filho da vítima, por nome Pessanha, iria matar o assassino, caso fosse absolvido, mas claro que ninguém acreditava que o tal criminoso ficaria livre, e este não subiu as escadarias do Fórum, preferiu ficar em praça pública junto a populares.

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Bem, com o final do julgamento, Vossa Excelência bateu o martelo! Pediu silêncio e leu o resultado da sentença… Um momento de expectativa invadiu o recinto, olhos arregalados, pessoas imóveis…

Enfim, algo apreensivo pairava sobre o lugar… E o juiz finalmente disse: O resultado do julgamento é favorável ao réu por 04 votos a 03… Então o respeito, a educação e o silêncio que antes havia, foram trocados por uma zoeira total, populares indignados com o corpo de jurados diziam: “Injustiça! Injustiça!”.

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Neste momento o tal filho da vítima que assistia tranqüilo o desenrolar do julgamento, levantou-se com uma reluzente faca jovença de mais ou menos dois palmos de comprimento e falou: “Daqui ele não sai vivo… E que ninguém me encoste à mão porque senão morre também!” Quase nem terminou de dizer a frase e a reação de todos foi imediata! Pois a coisa se complicou e muito… Isso foi o suficiente para o desespero e desordem geral…

Pessoas presentes saiam em disparada rumo às escadas, cadeiras caindo, as correntes fixadas junto aos tocos torneados que ornamentavam o lugar foram derrubadas ao chão… Gritaria generalizada!

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Policiais com arma em punho protegendo o acusado, juiz e advogada tiveram que procurar proteção dentro de uma sala com porta trancada… Corpo de jurados, alguns embaixo da mesa e outros enrolados no pano da Bandeira Nacional…

Um empurra prá lá um empurra prá cá… Lá embaixo na praça, a coisa piorou, porque o outro filho da vítima que estava na rua, posicionou-se estrategicamente na esquina da escadaria que dava acesso ao local do julgamento, pois notou que o pai do acusado vinha em disparada pela calçada em socorro de seu filho liberto!

O brilho do sol forte daquela manhã refletia em seu suor… Uma palidez estampada em seu rosto… Sua mão próxima a cintura estava imóvel naquela posição estratégica pronto para o bote fatal.

Populares sobressaltados olhavam aquela cena inevitável que estava para acontecer…

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E o senhor vem chegando, correndo, indo sem saber em direção da própria desgraça, pois exatamente naquela esquina, o tal filho da vítima o esperava! O tal Senhor que vinha em disparada, não chegou ao menos pisar no primeiro degrau da escadaria, pois tomou um tiro a queima-roupa na cara que tombou ali mesmo no chão todo ensangüentado…

Aquele tiro foi o estopim para a loucura total! Pessoas rolando escada abaixo e descendo aos borbotões, Dalton Brum foi pisoteado, empurrado e teve a perna quebrada além de outros machucados, na Rua os Srs. Arnaldo Perciano, Norico Mofati, Ary do açougue e Filhinho Costa saindo em disparada, só via a aba dos paletós balançando feito aza de tiziu e foram se alojar dentro do Bar Estoril.

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Parece que alguém se pendurou e saltou lá de cima da sacada do fórum, pois o tal homem da faca ainda estava por lá! Foi um momento raro e típico dos filmes de faroeste.

Conclusão: o velho que levou o tiro ficou com a cara torta, mas não morreu… O atirador que saiu em disparada rumo ao pontilhão da Arca de Noé desapareceu… O homem da faca não feriu ninguém… O juiz determinou novo julgamento e trancafiou o acusado que após cinco meses de reclusão fugiu e não deixou pista!

Mimoso e suas histórias… É vero! Eu comento… Mas não invento!

TEXTO: Renato Pires Mofati

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