O trem era bom, sô! (Por Roney Moraes)

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“Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida, virou só sentimento”, Adélia Prado.

Por Roney Moraes

Jornalista, Psicanalista e Teólogo

Quando criança, o caminho da aventura passava pelos trilhos. Corríamos atrás do trem imitando o superboy em Smallville. Na cidade, superar o maquinista era melhor do que ganhar medalha nas olimpíadas escolares. A “linha” foi a única coisa que não dividiu a minha infância e adolescência em Cachoeiro de Itapemirim.

O professor de Educação Física, do Colégio Jesus Cristo Rei, levava os meninos toda a semana para o “cooper” (Jogging) matinal na estrada que hoje liga os bairros Corte Grande e Coronel Borges, antes, na década de 1980, era cortado pelos trilhos. Corríamos e também nos equilibrávamos competindo: quem fazia o maior percurso sem sair da linha? O trem era bom, sô! Crescemos e sabíamos que para atravessar a rua tínhamos que olhar para os dois lados, uma e duas vezes, antes de chegar à outra margem. É que no meio passava a linha.

O prédio do Sindicato dos Ferroviários não era só patrimônio apenas dos trabalhadores da categoria. Era e é até hoje um ponto comercial frequentado por todos. O Judô Clube Cachoeiro (JCC), hoje no Ciac Raimundo Andrade, nasceu lá, após anos no Sesi. Os bailes populares aos domingos até o início da década de 1990 e por aí vai… o trem…

Minha história e de muitos com o transporte ultrapassa as fronteiras municipais. Em dois outros textos me refiro a novas aventuras recentes. Uma no Rio de Janeiro e outra na Estação da Luz, em São Paulo. No Rio, eu e minha família pegamos o trem de Cosmos até a Central do Brasil. Cerca de uma hora e vinte minutos. Pessoas “importantes” como nós devem fazer o trajeto até os camelôs de Uruguaiana. Artigos de primeira.

Nem precisava chegar ao destino final da viagem (e olha que tem indivíduos que reclamam das “distâncias” no Espírito Santo… Pobres de espírito) no transporte tinha de tudo. De água mineral até seis paçocas a um real.

Já na Estação da Luz, que abriga o Museu da Língua Portuguesa, vi o Brasil cara a cara. O evento em São Paulo reuniu escritores de todo o país e a oportunidade de conhecer gente bacana, poetas, contistas e cronistas do         Oiapoque ao Chui foi uma experiência fantástica. Um local que antes era destinado a embarque e desembarque de passageiros e que, atualmente, continua a viagem por meio da cultura.

Trilhos, estação ferroviária me lembram passeio. Idas e vindas. Vários textos homônimos (como os vagões) comparam a nossa vida como uma viagem. De estação a estação embarcamos e desembarcamos pessoas, situações e emoções pelo caminho.

Queremos que alguns façam a viagem inteira conosco, mas é inevitável o desembarque durante o percurso. Continuamos lembrando como, se fosse um apito, da importância que fazem em  nossa vida. Meu pai foi o primeiro a descer e não será o único. Mas a turnê continua…

Enquanto uns descem, outros sobem, entram e se aconchegam. O barato é que a passagem não tem custo e não há o menor risco de superlotação. O vagão é enorme.

TEXTO: Roney Moraes

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