História de Mimoso

O Glamour do Municipal Lítero Clube

Sábado, 23 de Junho de 2018 às 12:59

Por Redação in Foco
Quarta-feira, 10 de janeiro de 2017, às 15h10.
Os-famosos-Baile-no-Municipal

Por Renato Pires Mofati

Nas viagens fantásticas voltando ao passado, chego à década de 60 num sábado ensolarado de primavera, em frente ao Clube Municipal… Por alguns instantes avistei os morros que circundam a cidade, os casarios, a linha férrea, o Rio Muqui e o jardim da praça e ali estava tranqüilo admirando Mimoso do Sul, quando ouço vozes e barulho de portas de carros se fechando: eram rapazes e moças que retiravam objetos dos interiores dos automóveis Chevrolet Custon e Camionete Fargo.

O frenético movimento de pessoas nas dependências do clube me chama atenção. Me aproximei daquele calor forte e a tradicional camisa “Volta ao Mundo” da Valisier colava na pele dos rapazes juntamente com o suor, devido ao trabalho naquela tarde. Ao entrar na repartição do Clube, tudo estava impecavelmente limpo e arrumado: vasos, tripés com arranjos de plantas davam mais vida ao local, o chão de cor grená reluzia um brilho sem igual, uma enorme passadeira seguia da entrada até o início da escadaria, de onde se avistava o bar do Clube, com muita organização e opções com vários tipos de bebidas nacionais e whiskys importados, tais como: Royal Saluter, Crow Royal, Queen Ane e outros, mas a intenção era seguir escada acima e chegar ao grande salão, só que algo aconteceu! Fiquei hipnotizado em frente ao velho espelho que foi e é testemunha dos fantasmas do passado, que iam e vinha circulando a minha volta em velocidade assustadora como num filme acelerado,. Não conseguia me mexer ou escapar de seu reflexo, então fechei os olhos, abaixei a cabeça prestando reverência a própria sentinela viva daquele lugar e consegui voltar à realidade seguindo em frente.

Ao chegar ao grande salão de danças, o requinte e organização eram peças fundamentais várias mesas com toalhas brancas e arranjos eram destaques. Flores artificiais brancas, cinzas e pérolas cuidadosamente colocadas pelas hábeis mãos de Dona Dalva Ribeiro e Dona Diva para ornamentações dos enormes painéis colocados em posições estratégicas, cortinas aveludadas bege e vinho, com acabamentos e dobras especiais, davam um charme à parte. Tudo preparado para uma noite de muita alegria, requinte e sofisticação no “Municipal Lítero Clube”. E eu ali, presente naquela época, não poderia perder a oportunidade de ver um daqueles bairros famosos e inesquecíveis com tempo de sobra para me ocupar com alguma coisa até o início do baile, desci as escadas, dei uma última olhada para trás e a cena ficou marcada como fotografia na mente: os rapazes com o tradicional corte de cabelo da época no melhor estilo Ted Boy (topete) e as garotas com calça pescador, sapatinho baixo e faixa grossa de pano na cabeça feito diadema, ensaiavam alguns passos de dança.

Saindo do clube, dei uma volta pela praça vendo como tudo era diferente. A começar pelo jardim, que ficava no mesmo nível da rua, várias árvores da espécie “Ficos Benjamina”, muito bem podadas por sinal, em forma de pirâmides, balões e quadriláteros embelezavam o lugar, uma infinidade de flores multicoloridas eram destaque, os bancos longos e os individuais, juntamente com o belo chafariz e as luminárias faziam parte do complexo da praça com tudo limpo, bem cuidado e respeitado. Resolvi olhar para os casarões, os Prédios Luiz XV, entre outros. Do outro lado, o prédio da prefeitura parecia menor e como era sábado estava fechado. Continuei olhando pra lá, e pra cá e um nome escrito com letras grandes na lateral de uma parede próximo de onde mais tarde seria o Barnabé, me chamou a atenção, pronunciava-se “A Nova Morena”, então perguntei a um senhor que seguia a passos rápidos à Rua da Pratinha e ele respondeu: “Esse é o nome de uma loja que vende renda, bordados, bijuterias, lãs e seu proprietário chama-se Munir, que trabalha na loja com a sua esposa. São pessoas muito bem relacionadas na cidade.” Agradeci ao tal senhor e indaguei seu nome. Ele respondeu: “Sou Veriano!” E lá se foi com aquele par de sapato preto brilhante, calça caqui e desejando uma boa tarde.

Segui calçada afora até o Bar Guarani, onde tomei um Grapette gelado que já existia, assim como Guaraná Cruch, Mirinda, Mineirinho e a estonteante Coca-Cola. Fui até a esquina do bar, olhei para a ponte da Arca bem estreita com suas passarelas, uma de cada lado juntamente com as enormes luminárias em forma de cone e bem próximo uma placa da Shell anunciava a revenda de derivados de petróleo e lavador de veículos do Sr. Joaquim Lopes. As coisas eram mesmo diferentes!

O tempo passou rápido e já estava na hora do baile. Não me perguntem como consegui aquele smoking, abotoaduras, gravata borboleta e tudo mais para ser o penetra número 1 daquele baile!

Na chegada, ainda do lado de fora, a iluminação do clube me impressionou, a variedade de tons de luzes e seu interior era um espetáculo, semelhante ao tom e mudanças de cor do cinema. Fiquei surpreso com o número de automóveis e de casais elegantemente bem vestidos para a ocasião e com muito charme, beleza e glamour, como os casais Getúlio Pires e Maninha, Giovani Guarçoni e Lúcia Helena Mignoni, Vanny Morreira Cid Castro, etc.

E lá vou eu, seguindo junto aos convidados, a banda Cassino de Cevilha fazia pulsar o ambiente com sucessos de boleros, como “El Relógio”, e tango “Por Uma Cabeza”, de Carlos Gardel, precisa mais? Afinal, era o prenúncio de um grande baile e a sociedade de Mimoso se fazia presente, dentre os ilustres convidados, podemos citar: Milton Vivas e Zéa Barreto, Kaliu Cafuri e Dona Maria, Dr. Hélio e Aylse Carrera, Mandalê Minassa e Helena, Willian Moreira e Carmem Garcia, e outros… O momento mais esperado foi anunciado: rapazes e moças valsando ao som de “You Night Serenate” , de Glen Miller, tudo na mais perfeita harmonia, uma mudança na iluminação com reflexos e brilhos faiscados provocados por um enorme globo de vidro giratório, parecendo uma valsa nas estrelas, com efeito visual deslumbrante, alvo de olhares admirados de todos os presentes e o baile entrou madrugada adentro até o raiar do dia.

Após o final do baile tudo deveria ser arrumado novamente, para que no domingo a tarde, como de costume, o “Suarê” acontecesse. Sabe o que foi isso?

Pois bem, pergunte ao seu pai, mãe, tio… Avô que fez parte disso tudo também… aí já é outra história que prometo contar em outra ocasião.

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