História de Mimoso

EM ALGUM LUGAR DO PASSADO: Uma noite no cinema

Sábado, 26 de Setembro de 2020 às 09:23

Por Redação in Foco
Segunda-feira, 04 de setembro de 2017, às 06h50.
Cinema-São-José-2

Por Renato Pires Mofati

Talvez essa tenha sido uma das mais prazerosas viagens que fiz, pois em duplo sentido pude perceber o quanto é especial voltar a minha juventude de meus 16 e poucos anos e ainda estar dentro de um dos mais agradáveis lugares que nós, jovens de toda aquela geração, gostavam de ir!

E assim fiz questão de escolher uma data propícia para tal ocasião, e no temporizador da minha “Máquina do Tempo”, marquei para um sábado de junho de 1975… Parece assim tão perto, mas ao mesmo tempo tão distante! Fazem apenas 42 anos!

Pois bem, após ter acertado a data, fui ao encontro desta época, retornei bem rapidinho, cheguei ali perto do Clube dos Operários, mais especificamente ao lado da oficina dos irmãos Delatorre, verifiquei no meu pulso e o horário no relógio Mondaine marcava 19 horas e 35 minutos, retirei-me da Máquina do Tempo… Ainda o aroma inebriante do meu perfume “Vites” se espalhou pelo ar!

Segui em direção a casa da minha amiga Ledinha que ficava um pouco abaixo, ela não era a minha namorada, nem coisa desse tipo… Acho que tínhamos algo diferente gostávamos de estar sempre juntos, uma grande amizade? Pode ser! Bom, chamei-a na janela e ela rapidamente apareceu… Estava eufórica, parecia mesmo uma colegial! Logo veio me dizendo: “Vamos ao cinema?” Eu respondi: “É para isso que vim!” Dona Leda Mariano, responsável pela criação dela, fez as recomendações de praxe e saímos… Não completamos sequer 05 passos por aquela calçada da Rua Siqueira Campos e uma voz do alto de uma varanda pronunciou: “Ledinha, espere ai!” Era a sua amiga Ziza, filha do Seu Lilinho Perciano e de Dona Marília, que morava em frente. E ela se juntou a nós…

Quando passamos em frente à venda do Sr. Miguel Lopes, para tomar a Ponte da Arca de Noé, notamos muitas pessoas na esquina da Casa Nilo, nos aproximamos mais e percebemos um final de fila, eram pessoas aguardando a vez para comprar os ingressos e assistirem a estréia do filme “Tubarão” que a fama de assustador e de grandes efeitos especiais corria de boca em boca. Este filme foi um dos mais esperados naquela época! E para nós adolescentes era o que queríamos de verdade.

Minhas amigas marcavam o lugar na fila e eu saí em disparada em direção ao Bar Guarani, comprei dois azedinhos doces, aquele inesquecível chicle macio e saboroso de morango. Voltei rapidinho e elas já estavam pertinho da bilheteria, a fila seguia bem rápido. Finalmente compramos os ingressos e entramos. O Sr. Degazito era o responsável pelo cinema, logo na entrada para a sala de espera e próximo a um baú de madeira onde eram colocados os ingressos de entrada, estava o Sr. Jorginho Acha, era o fiscal responsável pela censura do filme que tinha restrições: “Proibido para menores de 12 anos”, e o Seu Jorginho não dava brecha para ninguém, só que nós estávamos liberados ao apresentar a carteirinha de estudante do ginásio.

Na sala de espera, vimos sentados o Dr. Linconl, Geraldo Bruzzi e João Luiz Guimarães conversando com o Sr. Enes Cheibub que estava de pé, lembro-me perfeitamente de sua roupa: calça de tergal, sapato preto, camisa de um branco total… Uma corrente de prata pendurada na algibeira, supostamente segurando algum relógio “Omega Ferradura” de bolso! Seu Enes era o responsável em escrever nas tabuletas do cinema o anúncio de novos filmes!

Ali mesmo na sala de espera, nos juntamos a um aglomerado de outros amigos, que olhava dentro de um grande painel de vidro um cartaz, que na verdade, não mostrava muita coisa, apenas uma foto com a silhueta de um homem de chapéu, segurando uma bolsa, parado perto de um poste, olhando para uma janela de apartamento iluminado… Se aquela imagem não mostrava muita coisa, as letras diziam por si, no cartaz estava escrito “O Exorcista”, de Wilian Peter Blatty, o filme mais aterrorizante de todos os tempos. Então não é preciso dizer mais nada! Este filme iria ser exibido no próximo mês, mas hoje, é dia do “Tubarão”!

No grande relógio da sala de espera, marcava 20h15min, faltava pouco para o início da sessão. Seguimos para o grande salão. Tomamos a direção esquerda, e descemos… Entramos na sexta fila de cadeira de baixo para cima, era ali que a bagunça e os amigos se encontravam, e lá já estavam: Cícero Said Thomé, Guilherme Carrera, Marcelo Brazinha, Salete, Nanda Beloti, Mirinha Mofati, Terezinha Arrabal, Luciana Brum, Gina Tâmara… Mais atrás, Zezinha Rangel, Dodô, Zé Inácio, Evandro Abdala. As luzes ainda estavam acesas e o Senhor Degazito, não começava o filme, óbvio que estava vendendo ingressos, afinal, era o filme “Tubarão”! E com isso, a certeza do seu bolso cheio!

Foi até bom tal atraso, pois pude contemplar novamente toda aquela maravilha de nosso cinema… As cortinas aveludadas na cor vinho, as enormes luminárias suspensas no teto, toda a perspectiva tendo a enorme tela panorâmica ao fundo, os ventiladores “tufão”… Der repente uma troca de cor na iluminação ambiente, roxo acompanhado da batida de um gongo, outra cor, vermelho… Outro gongo já com nova escala musical! Agora verde… Outro gongo, outra escala. Então tudo se apaga! Escuridão total… Na velocidade da luz, um jato feito canhão de luz, vindo de alguns quadrados no auto de uma parede por de trás, passa sobre nossas cabeças, era a iluminação na fita aumentada com potentes lentes que equipavam as máquinas Phillips de projeção e que era projetada na tela do nosso Cine São José, criando assim a 7ª arte.

Com pequenos defeitos de imagem, lemos a palavra “Brevemente”. Iniciou-se então o trailer do filme: “Meu nome é Ninguém”, com Terence Hill, depois outro trailer com o filme “Operação Dragão”, com Bruce Lee. Após os trailers seguiu-se com o esporte no canal 100 tendo aquela música ao fundo onde era mostrado flash do jogo entre Flamengo X Santos. A seguir a imagem de uma nota fiscal com a palavra “censura”, que dizia “Impróprio para menores de 12 anos”.

Devido há demora em começar o filme, aqueles jovens, todos nós, ficamos impacientes, e assim, assovios e uma gritaria se instalaram de vez! Uns pulavam sobre as fileiras das poltronas, outros jogavam bolas de gude por baixo delas, ouvia-se estouros provocados por saquinhos de pipoca e com isso, um lanterninha nervoso chamado Sr. Euclides mostrava serviço! A barulheira infernal rapidamente foi trocada por grande silêncio, pois na enorme tela surgiu um mar visto por sua profundeza, acompanhado de uma música assustadora… Quem se recorda dela? Era o início do filme “Tubarão”. Realmente aquilo tudo foi sensacional, cada susto! Um aperto no meu braço de minha amiga Ledinha, e assim entre uma cena e outra, um grito a mais… Dividi aquele momento de estar no escurinho do cinema assistindo a um bom filme junto a uma grande amiga.

Ao final do filme saímos apavorados e comentando cada cena. Eu pensei comigo: “Nunca mais entro no mar!”. Cada um seguiu para sua casa, e eu para minha solitária “Máquina do Tempo” reprogramei a data para 2013, agora com meus cinquenta e três anos, e junto a minha realidade, simplesmente para contar uma noite no cinema para vocês!

E a saudade, oh!

Até o próximo!

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