História de Mimoso

EM ALGUM LUGAR DO PASSADO: Um passeio em nossos comércios

Quinta-feira, 22 de Outubro de 2020 às 02:51

Por Redação in Foco
Quinta-feira, 19 de janeiro de 2017, às 13h00.
Vista-panorâmica-do-centro-de-Mimoso-do-Sul

Por Renato Pires Mofati

Expediente-da-Revista

Expediente da Revista

Usando o imaginário como num filme de ficção, mas mostrando realmente como as coisas eram me fiz presente numa viagem ao passado, indo parar no ano de 1951… Era uma manhã fria de agosto e aproveitei os primeiros raios de sol que vinham lá do Belmonte para me aquecer bem em frente à loja “A Arca de Noé”. Próximo a mim também se aquecendo ao sol, o Sr. Antonio Velasques dá uma tragada no velho Continental sem filtro, misturando a fumaça do alcatrão e nicotina junto àquela provocada pelo frio… Eram 06h45, vejo alguns alunos indo em direção a Rua Presidente Vargas que na época era conhecida por Rua Paraíba, eles seguiam para o Ginásio.

Continuei ali ainda por algum tempo, de repente fui abordado por dois homens, um com uma máquina fotográfica pendurada por uma alça no ombro e o outro com uma bolsa de couro e alguns papéis na mão. Disseram-me: – Bom Dia! E se identificaram pelos nomes de Ormando de Moraes e Newton Braga (este último irmão do cronista Rubem Braga) diziam recém-chegados no trem de passageiros “Expresso” vindo de Cachoeiro de Itapemirim, e que suas finalidades nesta cidade eram conseguir patrocínios com os comerciantes locais e criar matérias para colocar o município de Mimoso do Sul como destaque em uma revista, e que precisavam de uma pessoa da cidade para guiá-los. Bem, sem muitas indagações, logo me ofereci para ser o cicerone daqueles dois e assim fizemos… Traçamos um itinerário, trocamos algumas idéias e seguimos.

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Início da obra do Cinema

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Rua Paraíba em destaque Bar St Terezinha e Guarani

Nosso primeiro contato foi com o próprio Sr. Antonio Velasques em seu Bar Santa Terezinha, local que mais tarde seria a Casa Nilo, um bar bem espaçoso com mesas, cadeiras e uma vitrine para os deliciosos pastéis e empadas feitos por Dona Zulmira. Um enorme refrigerador me chamou a atenção naquele bar, pois um estranho motor por cima fazia girar um eixo movimentando a água abaixo, para assim fazer o resfriamento do líquido, neste caso à salmoura, que servia para congelar sorvetes e picolés, hoje não se vê mais isso! Havia ainda um grande balcão de vidros para doces do tipo: Canudinhos açucarados, Maria-mole, pé de moleque… E o Sr. Antonio fechou como patrocinador da revista.

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Patrocínio do Banco do Brasil na Revista

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Nossa Praça e a Arca de Noé

Atravessamos a rua e fizemos mais dois anúncios, um com o Jorge Gabriel no Hotel Guarany “O Mais Central da Cidade”, palavras estas que deveriam constar no anúncio e o outro no próprio Bar Guarany. Nossa meta agora era estar com os Irmãos Michel, Jorge e Demétrio da tradicional e famosa loja “A Arca de Noé”. Esperamos um pouco pelo horário e os funcionários iam chegando um a um, Sr. Antonio Barreto (Butija), Luiz Peixoto, Zezé Tachinha, Leatrice, Duduca… Reparei que em uma parede da loja havia uma pintura homenageando a passagem bíblica de Noé junto a sua enorme Arca no período do dilúvio e ao lado em destaque uma frase escrita em letras grandes: “A Arca de Noé fundada em 1937”. O interior da referida loja era composto por uma enorme variedade de itens, que até um dos meus companheiros deixou escapar: “Nem em Cachoeiro existe uma loja deste porte!” Com verdade a Arca de Noé em Mimoso, vendia uma infinidade de tecidos, artigos para armarinho, chapéus, calçados, presentes, brinquedos (era representante exclusiva da gigante fábrica de brinquedos Estrela) pratarias, enfeites de vidro, metais, louças, porcelanas, tapeçarias, ferramentas, miudezas, artigos funerários, eletrodomésticos, armas, munições, fogos de artifícios e outros. Após alguma espera fomos, finalmente atendidos pelo Sr. Demétrio e é claro o anúncio confirmado!

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Senhor Andrade e funcionários do Banco do Brasil

Dali tomamos direção à Rua Paraíba, do cinema, que ainda não existia, apenas uma grande quantidade de materiais de construção se fazia presente, presumindo que uma obra muito grande seria feita por ali. Fomos então para a agência do Banco do Brasil que ficava em frente de onde atualmente se encontra. O gerente Sr. Andrade nos atendeu e passou algumas informações sobre operações bancárias para que fossem publicadas na revista. Da agência do Banco do Brasil seguindo por aquela mesma calçada, chegando à Gráfica Mimosense que executava impressos, inclusive coloridos e carbonados, além de ter em anexo papelaria e vidraçaria, seu endereço: Rua Paraíba, 152. Logo a seguir visitamos o simpático casal Sr. Arlindo Turra e sua distinta esposa Sra. Aurora que chefiavam o escritório de Contabilidade Geral que era exercido por técnicos competentes, e mais um anúncio confirmado.

Voltamos um pouquinho e seguimos pela Rua Vasco Coutinho com destino ao bairro Alto São Sebastião… Poucas casas, rua sem calçamento, mas a igrejinha já estava lá! Paramos na padaria do Seu George Wigneron e fomos atendidos por um jovem moço, alto, magro saindo atrás de um balcão, adivinhe quem? O próprio Sebastião Bartoli, sem óculos, é claro! Visitamos a convite o interior da padaria e o padeiro Kid colocava um tabuleiro com pães no grande forno a lenha. Após alguns minutos seu George aparece e mais um anúncio para a revista, na saída não resisti e fui logo pegando um pedaço de caçarola Italiana e o bondoso Sr. Wigneron disse: “É cortesia da casa!” Pertinho dali ficava a Serraria São Sebastião do conhecido Nelson da Silva Mota que também fez um anúncio, ela ficava onde mais tarde seria o boliche do seu Chico Aurélio.

Rua-Espírito-Santo

Rua Espírito Santo

Resolvemos voltar em direção a Rua do Clube dos Operários mais conhecida por Siqueira Campos e a Foto Arte do Sr. Nagib Sales recebeu nossa visita, o lugar era legal e o Sr. Nagib mais ainda e fez parte de anunciantes da revista! Pois bem, descemos a rua e entramos na Casa Simão e os dois amigos que estavam comigo se distraíram com um macaco que ficava numa jaula ao lado da loja. Então uma elegante e bonita Senhora nos atendeu, era a esposa do proprietário Sr. Simão Ítalo que não estava e por isso não conseguimos o anúncio.

Fármacia-Franco

Fármacia Franco

Bem ao lado ficava a Farmácia “Franco” de propriedade do Sr. Manoel Franco, E assim vimos uma boa e equipada farmácia com muitos medicamentos, grandes armários de portas de vidro, vários tubos de ensaio, pipetas, balança de precisão e ali outro importante patrocínio autorizado para publicação na revista.

E lá vamos nós… Seu Dimas da Padaria Bom Sucesso era agora o nosso próximo objetivo, e lá estava ele do outro lado da calçada conversando com Dona Nazle, Adélia e Leocádia. Caminhamos em direção à padaria e logo veio para nos atender, como sempre com um palito na boca (a gentileza de seu Dimas era famosa). Ofereceu-nos café com rosca de leite, meus companheiros aceitaram, mas eu… Bem, já estava de olho no velho tabuleiro de Mironga e não dava para resistir! Que saudade do Seu Dimas, quanta bondade… Ele ofertava todo o trigo para a igreja para confeccionar as hóstias consagradas. Uma grande pessoa! O endereço da Padaria era Rua Espírito Santo, 294.

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Casa Zahira de Calil Kafury

Dali, seguimos para a casa Zhaira de Kaliu Kafuri que se prontificou em colocar o anúncio, antes, porém de saber algumas informações do tipo: De onde éramos, quando sairia publicado a revista, o preço do anúncio… E assim Kaliu e funcionários posaram para a foto.

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Darcy Francisco Pires na sapataria

Prédios-da-Rua-da-Estação

Prédios da Rua da Estação

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Folha de Cheque do Banco Ribeiro Junqueira

Região-das-Mangueiras

Região das Mangueiras

Praça-Central

Praça Central

Praça-e-prédios-de-Mimoso-em-destaque-o-comércio-A-Nossa-Casa

Praça e prédios de Mimoso, em destaque o comércio A Nossa Casa

Praça-e-prédios-de-Mimoso-em-destaque-o-comércio-A-Nossa-Casa

Praça e prédios de Mimoso, em destaque o comércio A Nossa Casa

Agora a nossa próxima parada foi um momento mais que especial para mim, pois ao voltar no tempo conheci o meu avô antes mesmo de eu ter nascido, deu para entender o contexto de tempo e época? Pois é, e lá estava ele sentado, cabelo preto penteado para trás, alguns fios caídos na testa, consertava uma bola de futebol. Junto dele estava o Sr. Benedito Seleiro um grande amigo. Aquele lugar chamava-se “Selaria e Sapataria Darcy”.

Após conversar com ele sobre a revista e ele compenetrado em seu trabalho, parecia não ouvir o que se falava… Vovô sempre foi assim, fisionomia séria, rápido em suas definições e com o tom de voz grave disse: “Coloque no anúncio: Calçados de qualquer tipo, arreios, artefatos de couro em geral, artigos para esporte. Rua Espírito Santo, 186, Mimoso do Sul-ES” E disse ainda: “Pode de uma vez fazer o recibo!” Eu não conseguia piscar os olhos nem falar. Sai dali e ele continuou seu trabalho, que momento!

Na sequência da Rua Espírito Santo, passamos pelos prédios, estação… O cheiro forte dos armazéns de café e o frio daquela rua era pura nostalgia, de fato aquilo tudo é uma vida! Um pouco mais a frente o Sr. Fued Yazegy nos autoriza mais um anúncio para o seu comércio. Lá adiante quase na curva para o Bar Vitória ficava o Banco Ribeiro Junqueira, e o Sr. José Resende nos recebeu com seriedade e educação. Passou-nos alguns dados sobre o banco: Fundado em 1912, possui 15 agências em Minas gerais, 19 no Rio de Janeiro, 02 em São Paulo, além de Mimoso e Muqui. Tomamos um delicioso cafezinho e seguimos nosso trabalho.

Em frente ao antigo Mercadão, hoje o Auto Posto São José, vimos uma grande indústria com vários funcionários, realmente era frenético o movimento por ali, onde trabalhava o Sr. Manoel Muri Bino (Nelinho). Era a fábrica de aparelhos de solda elétrica “WELK” e transformadores, seu proprietário era um estrangeiro que veio da Letônia por nome Guilherme Klauss. No exato momento de nossa visita à fábrica chegou por ali o sogro do proprietário, um político conhecido em todo o estado por nome João Calmon… Tivemos que aguardar um bom tempo para finalmente poder acertar mais um patrocínio para a revista, que vinha tendo ótima aceitação e confirmação por parte dos comerciantes de Mimoso do Sul.

Nosso caminho a seguir foi pelo pomar do Sr. Gil Leite onde mais tarde tornou-se conhecida por “Praça das Mangueiras”. Aquela passagem era de verdade um caminho trilhado entre denso matagal e uma espécie de ilhota cercada de água, aliás, o Rio Muqui do Sul dava muitas voltas serpenteando aqui e ali… Antigamente tudo era muito diferente dos dias atuais! E vamos nós agora passando por duas pinguelas de madeira e bem estreitas que tinha o nome de “Ponte do Camelo” sob o sinuoso Rio Muqui do Sul que mais tarde teve seu curso alterado.

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Seguindo pela Rua da Capelinha São Pedro e Prefeitura, visitamos o consultório dentário do Sr. Barreto que rapidamente fez um anúncio, passamos pela praça indo em direção a ponte do posto de saúde e viramos a direita e logo a seguir nosso objetivo, pois ali se via a propaganda: “NETINHO – SODA, GUARANÁ E REFRIGERANTE DE MATE”: era a fábrica de refrigerantes Capixaba de Salles e Cia, e o anúncio foi confirmado.

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Voltamos novamente à praça central e um movimento nos chamou à atenção, acontecia a mudança da loja “Casas Franklin” para novo endereço e mesmo assim o anúncio foi feito para a revista.

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Seguindo pela tradicional calçada dos antigos prédios de nossa praça, chegamos em nosso último patrocinador “A Nossa Casa” de José Maria de Oliveira (Pingo D’água) como era conhecido, ao entrarmos em sua loja, escutamos uma voz que vinha lá dos fundos: “José Teófilo, venha pra cá meu filho, brinque aqui!” E aquele garotinho com seus 06 anos pegou um ioiô e distraiu-se… O proprietário estava ocupado no escritório da loja fazendo um pagamento a Dona Brígida pela confecção de um bolo e docinhos que ela havia feito para o pequeno Teófilo em seu aniversário, aguardamos o desenrolar da conversa e fomos atendidos, Pingo D’água pediu para pôr no anúncio que era representante exclusivo dos Calçados Santo, Luiz XV e Hilda, além de outros.

Dali, nos retiramos, e estava assim encerrado o meu passeio na companhia de ótimos amigos numa época maravilhosa e inesquecível de nosso Mimoso do Sul. Retornei para o ano de 2017 e resolvi contar tudo isso a vocês!

Até o Próximo!

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