História de Mimoso

“CAUSOS” ANTIGOS: Lata D’Água na Cabeça

Quinta-feira, 22 de Outubro de 2020 às 03:10

Por Redação in Foco
Segunda-feira, 09 de janeiro de 2017, às 14h20.
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Por Renato Pires Mofati

 

Em meados dos anos 50 um fato curioso e pitoresco deixou muitas pessoas sem entender direito o que aconteceu e foi assunto comentado por muito tempo.

Tudo começou numa manhã de domingo em fevereiro. O fato teve como protagonistas um dos mais conhecidos moradores de nossa cidade. Em especial, o proprietário da tradicional Casa Simão, o popular Simão Ítalo. A Casa Simão era uma espécie de mini mercado e sua localização era muito conhecida porque ficava instalada junto ao grande prédio bem no centro de Mimoso onde atualmente reside o casal Lilinho Perciano e Dona Marília.

O estabelecimento era tão popular que a cada ano, mais precisamente em 17 de agosto, realizava a tradicional “Festa do Simão Macaco”, talvez pela presença de um desses primatas que sempre era destaque numa pequena jaula em frente à loja e despertava a curiosidade de todos.

Além do habitual comércio que existiu por ali, o proprietário Simão também se responsabilizava por fazer anúncios através de um serviço de auto falante que ficava instalado no telhado do referido prédio, de modo que toda a praça e grande parte da cidade tomava conhecimento de qualquer fato ou acontecimento importante, desde anúncios dos filmes em cartaz no cinema, os bailes no Municipal Lítero Clube, partidas de futebol e também o comunicado fúnebre por ocasião de algum falecimento.

Fachada-do-Loja-A-Arca-de-Noé

O estúdio de som ficava no interior da loja, num pequeno quarto reservado que possuía apenas uma porta de entrada. E lá dentro uma recém chegada e potente rádio vitrola da marca RCA Vitor era destaque, além de muitos discos de vinil e o microfone em que Seu Simão prestava-se como locutor. Ali dentro a porta era trancada e não era permitido qualquer contato, Simão não podia ser incomodado, pois o momento necessitava de total silêncio e concentração.

Ali dentro, nada… Absolutamente nada se ouvia do mundo exterior, nem mesmo o som que se propagava lá encima no telhado. A única presença permitida era de seu pequeno Filho Simãozinho, que adora ficar brincando de colocar e retirar os discos nas capas e vez ou outra Simão Pai se prestava costumeiramente a acertar discos em capas trocadas. Assim o tempo passava naquele pequeno mundo musicalmente falando.

Como era mês de fevereiro, o Simão estava sempre a tocar no alto-falante músicas animadas de carnaval e assim seguia a rotina. Mas naquela manhã uma notícia chegou até o conhecido comerciante, pois ocorrera o falecimento de um grande político e figura das mais conhecidas na cidade e por isso houve a necessidade de se fazer o anúncio no serviço sonoro da loja. Rapidamente ao saber do acontecimento,

Simão parou com a animada música que tocava e aquele auto falante emudeceu-se por completo. Simão agora tinha que preparar bem rápido um texto para o fúnebre pronunciamento.

Nossa-praça-década-de-50

Naquele lugar isolado do mundo exterior, a luminosidade precária quase não iluminava. Com o texto pronto numa folha de papel, Simão então procurou o disco que tinha a canção melancólica e triste, que serviria como fundo musical de seu anúncio que seria lido por ele. Detalhe à parte: seu Filho Simãozinho como sempre por ali sentado mexendo nos discos.

Então o velho Simão retira de dentro daquela capa o pesado Long Play. Com a visão já um pouco prejudicada, ele aproxima o selo do disco a menos de meio palmo de seus olhos, quase fechando a visão para melhorar o foco, tenta ver ou ler alguma coisa… Espicha os braços para baixo abrindo os olhos. Faz careta e retorna novamente perto de sua vista… A luminosidade era terrível! Encaminha o disco para o prato daquela maravilha estereofônica, pega o braço da agulha e encaminha até a 2ª faixa…

A potente vitrola vinha equipada com uma novidade, um botão que auxiliava exclusivamente para este fim, ou seja, uma espécie de “pause” que se cortava o som momentaneamente. E uma vez feito este procedimento, não se ouvia o que tocava no estúdio, para apenas ser reproduzido lá fora – ainda não existia o fone de ouvido.

Pois bem, Simão se aproxima do microfone, respira fundo e diz: “É COM PESAR QUE HOJE ANUNCIAMOS O FALECIMENTO DO SENHOR ———— — ———–, GRANDE AMIGO, POLÍTICO E FAZENDEIRO DE NOSSA REGIÃO! SEU CORPO ESTÁ SENDO VELADO NAS DEPENDÊNCIAS DA CÂMARA MUNICIPAL DE ONDE PARTIRÁ PARA O CEMITÉRIO LOCAL ÀS 16h00 HORAS. A FAMÍLIA ENLUTADA AGRADECE A PRESENÇA DE TODOS!”

Neste exato momento, Simão solta o tal botão do pause e a aparelhagem com a agulha já na 2ª música do lado “B” do pesado disco, começa a girar. E o auto falante com toda sua potencialidade sonora lá do alto do telhado segue ao anúncio antes pronunciado “mandando ver” com a canção: “LATA D’ÁGUA NA CABEÇA, LÁ VAI MARIA… LÁ VAI MARIIIIIIA!” Então novo pause para a leitura do anúncio fúnebre: “É COM PESAR QUE HOJE ANUNCIAMOS O FALECIMENTO DO SENHOR…” E novamente a canção: “LATA D’ÁGUA NA CABEÇA, LÁ VAI MARIA… LÁ VAI MARIIIIA!” Outro anúncio fúnebre… novamente a… “LATA D’AGUA NA CABEÇA, LÁ VAI MARIA…” E por aí foi…

De repente uma correria pelas ruas da cidade… Seu Milton Vivas do cartório vêm em disparada curvando na esquina da Arca de Noé e dá uma trombada com Demétrio Noé que saiu de dentro da sua loja apavorado com o que ouvia e partiram juntos em direção a ponte… Darcy Pires, João Mariano e Antonio Velasques descendo a Siqueira Campos pareciam maratonistas da São Silvestre. Kaliu Kafuri e seu Debiasi Martins só não chegaram primeiro porque o veloz atleta do time do Independente, George Wigneron, já estava lá socando a enorme porta de aço da casa Simão.

O desespero tomou conta de todos, pois o anúncio fúnebre com a canção “LATA D’ÁGUA NA CABEÇA” continuava a todo vapor. Não tinha jeito… Simão estava lá no interior da loja, num dia de domingo, num quartinho separado e isolado de tudo…

A angústia e o desespero tomou conta de grande parte dos mimosenses, principalmente daqueles que tentavam a todo custo conseguir estar com Simão para evitar a gafe, aquela situação horrível! E não teve solução… Aqueles Homens frustrados e cansados de tanto esforço inútil, sentaram-se todos no degrau da própria loja tentando uma forma de como resolver a situação.

Passado algum tempo ao término do anúncio, finalmente a porta se levanta e do lado de dentro surge o Simão tranquilo e feliz pelo compromisso realizado, mas se assusta com todos aqueles homens desfigurados, suados e apavorados em frente a sua loja que num aparente e ensaiado coro de vozes gritaram: “Simão!” E ele ainda calmo pergunta: -“O que tá acontecendo amigos? Outro anuncio? Pelo amor de Deus… Não me digam que agora o Prefeito Rubens Morreu?”

Essa foi o Chico Poldi que me contou… E a saudade oh!

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