História de Mimoso

A Semana Santa em Mimoso na década de 60

Sábado, 26 de Setembro de 2020 às 09:02

Por Redação in Foco
Reprodução de matéria publicada em 26 e abril de 2016, às 11h10.
Rua-da-Prefeitura-década-de-50

Por Renato Pires Mofatti

 

Estou aqui próximo a minha máquina do tempo e pensando para que ano e época viajarei! Após alguns instantes seguindo pelos envolventes labirintos do tempo rapidamente num breve piscar de olhos voltei para 1960. Era uma sexta-feira. Eu estava ali, em plena praça de nossa cidade, tudo calmo e tranquilo… Calmo até demais!

Vista parcial de nossa praça - década de 50 (3)

Notei que havia algo diferente, já se passava da quarta hora após o meio dia, um silêncio tomava conta de tudo, podia-se contar nos dedos às pessoas que meus olhos podiam ver! Os comércios fechados, um céu carregado e rajado prenunciava um temporal, aliás, nem o canto dos pássaros se ouvia, a natureza falava por si…

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Algo estava acontecendo, era um momento verdadeiramente triste! De repente ouvi alguns passos, me virei para a calçada da Arca de Noé e pude ver perfeitamente uma figura bondosa e curvada vindo em direção à prefeitura, tratava-se do Sr. Luiz Schiavo acompanhado de sua esposa e da amiga Dona Cotinha Braga… Neste instante, uma voz suave chama o Sr. Luiz acenando com a mão, era Dona Marieta Abreu e Dona Odília Barreto, para que juntos seguissem para algum lugar, e assim o fizeram, tomaram rumo em direção à rua do Dr. Lincoln…

Rua da Prefeitura década de 50

Eu estava ali parado, sozinho olhando aquele acontecimento, que foi quebrado pelo tradicional barulho de um antigo portão de ferro que se trancava, olhei rápido em direção de onde aquele som vinha e o vulto do Sr. Willian Moreira desapareceu nas dependências de sua residência…

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Segui a passos rápidos até em frente ao seu armazém que também estava fechado, curiosamente olhei para aquela nossa árvore que esta ali na praça… E vi que seus galhos balançavam de um lado para o outro provocado por uma ventania forte que soprava naquele instante. Poeira, folhas e papéis se movimentavam pela rua seguindo o caminho do vento… Não chovia ainda! Relâmpagos e trovões quebravam o silêncio daquele momento estranho, protegi-me em baixo daquela marquise do armazém Moreira esperando a fúria da natureza se acalmar, mas foi ali que pude perceber o que estava acontecendo… Havia um cartaz fixado na parede daquele comércio que dizia o seguinte:

“A Igreja Matriz São José convida a todos para assistir a encenação da Paixão de Cristo que será realizada em frente à igreja, logo após a procissão do enterro nesta sexta-feira da Paixão”.

Paixão de Cristo (MIMOSO IN FOCO)

 

Finalmente agora, tudo estava mais claro para mim! Ao voltar no tempo, vim parar exatamente na sexta-feira que marca a cada ano a morte de nosso senhor “Jesus Cristo” e todos os acontecimentos presenciados por mim, era a resposta ao momento de sofrimento, flagelo e morte que passava nosso Salvador. Naquele tempo, este dia era guardado de tal forma, que tudo se modificava de verdade. Durante a quaresma praticamente não se consumia carne vermelha, que era substituída por peixe, na Semana Santa, as emissoras de rádio, mudavam seu repertório, a música popular era suspensa e assim ouviam-se cantos, hinos e contos bíblicos específicos para a ocasião.

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Já na sexta-feira da Paixão, muitas pessoas não penteavam os cabelos, não varriam casas nem quintais! O uso de facas para cortar pães não era permitido, qualquer tipo de atividade era deixado de lado. No período da tarde daquele dia, todos se silenciavam… Ficavam quietos, rezando, muitos jejuavam e às vezes a fome era saciada com o tradicional canjicão!

O respeito era muito grande! E eu estava ali naquele dia cheio de tradição e respeito, então resolvi seguir junto a outro grupo de pessoas que também se dirigiam em direção à rua do Dr. Lincoln, e que faziam parte: Dona Amenaide, Tia Mequita, Vovó Aracy, Dona Rosa Guarçoni, Dona Helena Rangel, Dona Darcilia, Dona Euzi Bruzzi e outras… E que na seqüência daquela mesma rua se juntaram a eles… Dona Palmira e Sr. Antonio Leite, Dona Cecília e Seu Cristóvão, E assim seguimos todos juntos o nosso trajeto, passando primeiramente pela ponte do Camelo, toda em madeira e bem estreita, atravessamos à área do local conhecido por “Mangueiras” que era a extensão do pomar da casa da Amelinha leite, o chão era batido e víamos apenas fundos de residências. Passamos pela casa da Dona Zizi, e finalmente chegamos à igreja.

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Subi as escadas sob a gruta, ganhei novamente outra escadaria de frente à porta de entrada principal da igreja e me dirigi à sacada ao lado para puxar o ar e observar um pouco parte de nossa cidade… Fiquei admirando por um bom tempo, aquela enorme estrela com luzes acessas, em cima daquela pedra negra no morro da caixa d’água. Havia também um pouco mais distante a ela, um enorme cruzeiro de madeira, e junto a ele, várias pessoas se reuniam.

Bem, ao entrar na igreja, notei que todos os Santos estavam cobertos por uma manta roxa, o que é tradição, e várias pessoas se ajuntavam em certo local ali mesmo dentro da igreja, e então resolvi participar…

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Todos oravam em frente a aquela imagem de “Jesus” deitado naquele esquife de vidro que me trouxe recordações do meu tempo de criança, das catequeses com Dona Marieta, e de quando fui coroinha… Eu ficava olhando para “Jesus” com todos aqueles ferimentos, magro, muito pálido, imóvel, deitado… O que na verdade não entendia direito! E aquela cena me deixava um pouco assustado… Mas somente com passar dos tempos é que pude realmente entender do que se tratava.

Matracas

Após a encenação da Paixão de Cristo, realizada em frente à gruta, a procissão já se formava, com uma grande participação de todos, pessoas com velas acesas nas mãos, outra com um objeto estranho, e que somente após o inicio da procissão que fui saber do que se tratava, eram matracas! Que fazia um barulho estranho, e que na tradição era usada pelos sacristãos da igreja na procissão daquele dia.

Na semana Santa, ouvia-se no rádio contos de Cristo, e nos cinemas filmes bíblicos como: O Manto Sagrado, Reis dos Reis, Espártacus, Os Dez Mandamentos, Ben Hur, El Cid, Sansão e Dalila… Que era sinônimo de casa cheia!

De fato é um período sério e único que todos devem guardar com respeito e dignidade por aquele que sofreu e deu a vida por nós!

“Assim está escrito… E assim será”.

 

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